Quer saber o quanto alguém é feliz? Você pode perguntar. Ou observar com que frequência essa pessoa sorri. E se os dois métodos derem respostas completamente diferentes?
Escolhemos o segundo caminho e reunimos observações de sorrisos em dezenas de trabalhos de pesquisa. O ranking resultante divergiu bastante do conhecido World Happiness Report.
Na série Lie to Me (“Engana-me Se Puder”), o Dr. Cal Lightman percebia quando as palavras de alguém não combinavam com a expressão do rosto. O personagem é fictício, mas sua inspiração científica foi o psicólogo Paul Ekman [1], um dos pesquisadores mais conhecidos das expressões emocionais. Resolvemos levar essa abordagem além do indivíduo e aplicá-la a países inteiros.
No World Happiness Report 2026, a Finlândia ocupa o primeiro lugar em felicidade. Nosso modelo experimental de sorrisos observados colocou o país em 114º lugar entre 125 países e territórios. O Egito ficou em primeiro, mas esse resultado veio de apenas dois grupos de materiais de pesquisa. Isso não demonstra necessariamente que os egípcios sejam mais felizes que os finlandeses. Por que, então, os resultados diferem tanto?
Partimos de um axioma: a frequência de sorrisos espontâneos é o principal indicador diretamente observável da felicidade sentida. Para testar essa ideia em países diferentes, precisávamos de observações comparáveis, que ainda são extremamente escassas. Mesmo assim, decidimos investigar o que os estudos disponíveis sobre sorrisos poderiam revelar.
O sorriso de Ekman: é possível enxergar a felicidade?
Em 1990, Paul Ekman, Richard Davidson e Wallace Friesen estudaram as expressões faciais de pessoas que assistiam a vídeos com conteúdo emocional. Eles se concentraram no sorriso de Duchenne, que envolve músculos não apenas ao redor da boca, mas também dos olhos. Quanto mais tempo esse sorriso durava, maior era a felicidade relatada pelos participantes (correlação r = 0,59). A associação com a sensação de diversão foi ainda mais forte (r = 0,70).
Ao observar pessoas por tempo suficiente e em situações comparáveis, a frequência de certos sorrisos pode refletir parte de sua experiência emocional. Mas isso não é um detector mágico de sinceridade: é possível sorrir de propósito, e ninguém precisa sorrir a cada minuto para estar feliz. Gardiner e colegas [2] encontraram, posteriormente, associações bem mais modestas entre a frequência de sorrisos e a avaliação geral da própria felicidade (r = 0,18 e 0,26 em dois contextos).
405 mil vídeos: a tentativa de observar a felicidade
Em dezembro de 2025, pesquisadores do Google Research testaram uma ideia simples: por que depender apenas de questionários se podemos observar como as pessoas sorriem? Eles analisaram 405.448 vídeos curtos de 233 voluntários. A câmera do celular registrava o rosto após o desbloqueio da tela, enquanto a pessoa usava o aparelho normalmente. Uma rede neural media a intensidade dos sorrisos.
O resultado chamou a atenção. Os participantes sorriam menos intensamente às segundas-feiras e mais aos domingos. Esse ritmo semanal acompanhava de perto as mudanças no nível de felicidade registradas por uma pesquisa independente nos Estados Unidos. A correlação foi de r = 0,92. A observação das expressões faciais e as respostas a perguntas, duas formas distintas de investigar o fenômeno, produziram retratos surpreendentemente parecidos [3].
Essa semelhança vale para as médias dos sete dias da semana; não permite determinar a felicidade de uma pessoa específica. Mas o estudo havia mostrado algo importante: é possível observar o comportamento emocional no dia a dia sem perguntar às pessoas como elas se sentem. E se tentássemos comparar países inteiros pelos sorrisos? O problema é que os 405 mil vídeos vinham de apenas 233 voluntários. Para uma comparação internacional, seria preciso procurar fontes inteiramente diferentes.
SOSI: um ranking mundial de sorrisos em 125 países e territórios
Para isso, reunimos dados de 24 grupos de estudos heterogêneos, avaliamos sua comparabilidade e construímos 10.740 comparações par a par entre países e territórios. As fontes eram muito variadas: reações a anúncios, fotos de redes sociais, retratos de políticos e dirigentes, observações de funcionários de atendimento e de pedestres. Em 19 grupos, era possível comparar pelo menos dois países ou territórios. Não descartamos nem os dados mais frágeis, mas reduzimos sua influência sobre o resultado. Nenhuma fonte recebeu peso zero.
Com o modelo estatístico de Bradley–Terry, combinamos os resultados de diferentes estudos em uma única classificação. Assim surgiu o SOSI (Synthetic Observed Smiling Index), nosso índice sintético mundial de sorrisos observados em 125 países e territórios. Os detalhes dos cálculos e os materiais de origem estão publicados em um relatório do The Null Institute [4].
Os dois rankings coincidiram em alguns casos, mas divergiram bastante no conjunto: o Brasil apareceu em 7º lugar, Portugal em 52º, a Finlândia em 114º e o Japão em 122º. O Egito liderou, embora seu resultado se baseie em apenas dois grupos de fontes: reações a anúncios publicitários preservadas em arquivos e fotografias selecionadas.
Quando variamos os pesos atribuídos às fontes, as posições dos países mudam. Por isso, o gráfico mostra não só a classificação final, mas também quanto os resultados variam conforme a importância dada a cada estudo.
Como ler o gráfico. À esquerda está a 1ª posição; à direita, a 125ª. O ponto indica a posição do país no nosso ranking. A faixa mostra como essa posição muda conforme os pesos dos estudos: estão representados os 90% centrais das posições obtidas. Isso não é um intervalo de confiança para toda a população.
Para a Finlândia, reunimos cinco grupos de estudos: nas 160 combinações de pesos testadas, o país não entrou nenhuma vez entre os 30 primeiros.
Abrir a tabela completa: 125 países e territórios
| Nº | País / território | Pontuação do modelo | Grupos de estudos | Limitação |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Egito | 84,99 | 2 | |
| 2 | Panamá | 80,25 | 2 | |
| 3 | El Salvador | 75,04 | 2 | |
| 4 | África do Sul | 74,56 | 2 | |
| 5 | Chile | 73,92 | 2 | |
| 6 | Reino Unido | 73,89 | 8 | |
| 7 | Brasil | 73,52 | 4 | |
| 8 | Estados Unidos | 72,80 | 12 | |
| 9 | Nicarágua | 71,44 | 1 | Apenas fotos* |
| 10 | Bolívia | 68,24 | 1 | Apenas fotos* |
| 11 | Costa Rica | 67,95 | 1 | Apenas fotos* |
| 12 | Argentina | 67,82 | 3 | |
| 13 | Venezuela | 66,94 | 1 | Apenas fotos* |
| 14 | Guatemala | 65,22 | 1 | Apenas fotos* |
| 15 | Paquistão | 64,48 | 3 | |
| 16 | Macedônia do Norte | 64,03 | 1 | Apenas fotos* |
| 17 | Cazaquistão | 63,70 | 1 | Apenas fotos* |
| 18 | Equador | 63,23 | 2 | |
| 19 | Fiji | 60,51 | 1 | |
| 20 | Irlanda | 60,38 | 5 | |
| 21 | Luxemburgo | 60,08 | 3 | |
| 22 | Moldávia | 59,58 | 2 | |
| 23 | Antilhas Neerlandesas | 59,49 | 1 | Apenas fotos* |
| 24 | Itália | 59,48 | 6 | |
| 25 | Porto Rico | 58,87 | 2 | |
| 26 | Paraguai | 58,56 | 2 | |
| 27 | República Dominicana | 58,26 | 1 | Apenas fotos* |
| 28 | Islândia | 57,74 | 2 | |
| 29 | Líbano | 56,68 | 1 | Apenas fotos* |
| 30 | Uruguai | 56,68 | 1 | Apenas fotos* |
| 31 | Laos | 56,59 | 1 | Apenas fotos* |
| 32 | Sérvia | 55,47 | 2 | |
| 33 | Quirguistão | 55,13 | 1 | Apenas fotos* |
| 34 | Honduras | 55,03 | 2 | |
| 35 | Ucrânia | 55,03 | 1 | Apenas fotos* |
| 36 | Colômbia | 54,97 | 2 | |
| 37 | Albânia | 54,93 | 1 | Apenas fotos* |
| 38 | Malta | 54,89 | 2 | |
| 39 | Angola | 54,73 | 1 | Apenas fotos* |
| 40 | Turquia | 54,63 | 1 | Apenas fotos* |
| 41 | Peru | 54,47 | 2 | |
| 42 | Espanha | 54,46 | 7 | |
| 43 | Israel | 54,34 | 3 | |
| 44 | Romênia | 53,07 | 3 | |
| 45 | Canadá | 52,90 | 3 | |
| 46 | Austrália | 52,75 | 4 | |
| 47 | Bélgica | 52,74 | 4 | |
| 48 | Malásia | 52,48 | 3 | |
| 49 | Mianmar | 52,18 | 1 | Apenas fotos* |
| 50 | Gana | 52,08 | 1 | Apenas fotos* |
| 51 | Uzbequistão | 51,66 | 1 | Apenas fotos* |
| 52 | Portugal | 51,61 | 3 | |
| 53 | Aruba | 51,35 | 1 | Apenas fotos* |
| 54 | Bósnia e Herzegovina | 51,24 | 1 | Apenas fotos* |
| 55 | Bahamas | 50,82 | 1 | Apenas fotos* |
| 56 | Armênia | 50,72 | 1 | Apenas fotos* |
| 57 | Chipre | 50,43 | 3 | |
| 58 | Rússia | 50,15 | 4 | |
| 59 | Trinidad e Tobago | 49,98 | 1 | Apenas fotos* |
| 60 | Noruega | 49,87 | 2 | |
| 61 | Brunei | 49,77 | 1 | Apenas fotos* |
| 62 | Taiwan | 49,54 | 5 | |
| 63 | Belarus | 49,24 | 1 | Apenas fotos* |
| 64 | Quênia | 48,79 | 2 | |
| 65 | Tunísia | 47,66 | 1 | Apenas fotos* |
| 66 | França | 47,46 | 8 | |
| 67 | Países Baixos | 47,44 | 4 | |
| 68 | Dinamarca | 47,31 | 5 | |
| 69 | Vietnã | 46,97 | 2 | |
| 70 | Áustria | 46,63 | 4 | |
| 71 | Barbados | 46,62 | 1 | Apenas fotos* |
| 72 | Azerbaijão | 46,51 | 1 | Apenas fotos* |
| 73 | Alemanha | 46,50 | 8 | |
| 74 | Eslovênia | 46,35 | 4 | |
| 75 | Iraque | 45,99 | 1 | Apenas fotos* |
| 76 | Grécia | 45,54 | 3 | |
| 77 | Suécia | 45,44 | 6 | |
| 78 | Jamaica | 45,37 | 1 | Apenas fotos* |
| 79 | Bulgária | 45,20 | 3 | |
| 80 | Geórgia | 45,09 | 2 | |
| 81 | Marrocos | 45,09 | 2 | |
| 82 | Eslováquia | 44,87 | 2 | |
| 83 | Nepal | 44,66 | 1 | Apenas fotos* |
| 84 | Ilhas Virgens Britânicas | 44,56 | 1 | Apenas fotos* |
| 85 | Bangladesh | 44,04 | 2 | |
| 86 | Mônaco | 43,85 | 1 | Apenas fotos* |
| 87 | Tchéquia | 43,82 | 5 | |
| 88 | Filipinas | 43,79 | 2 | |
| 89 | Tanzânia | 43,55 | 1 | Apenas fotos* |
| 90 | Jordânia | 43,25 | 1 | Apenas fotos* |
| 91 | Suíça | 43,19 | 4 | |
| 92 | Sri Lanka | 42,86 | 1 | Apenas fotos* |
| 93 | Lituânia | 42,84 | 3 | |
| 94 | Palestina | 42,76 | 1 | Apenas fotos* |
| 95 | Croácia | 41,34 | 3 | |
| 96 | Nova Zelândia | 41,17 | 2 | |
| 97 | Tailândia | 41,11 | 3 | |
| 98 | Montenegro | 40,95 | 1 | Apenas fotos* |
| 99 | Estônia | 40,57 | 3 | |
| 100 | Singapura | 40,23 | 3 | |
| 101 | Maurício | 40,22 | 1 | Apenas fotos* |
| 102 | Andorra | 40,13 | 1 | Apenas fotos* |
| 103 | Catar | 40,13 | 1 | Apenas fotos* |
| 104 | Camboja | 39,17 | 1 | Apenas fotos* |
| 105 | Omã | 38,99 | 1 | Apenas fotos* |
| 106 | Emirados Árabes Unidos | 38,64 | 2 | |
| 107 | Macau | 38,55 | 2 | |
| 108 | Nigéria | 38,19 | 2 | |
| 109 | Arábia Saudita | 38,13 | 2 | |
| 110 | Bahrein | 37,67 | 1 | Apenas fotos* |
| 111 | Irã | 37,67 | 1 | Apenas fotos* |
| 112 | Coreia do Sul | 37,14 | 6 | |
| 113 | Letônia | 37,10 | 3 | |
| 114 | Finlândia | 36,61 | 5 | |
| 115 | Maldivas | 36,22 | 1 | Apenas fotos* |
| 116 | Cidade do Vaticano | 36,22 | 1 | Apenas fotos* |
| 117 | Kuwait | 36,15 | 1 | Apenas fotos* |
| 118 | Hungria | 35,66 | 3 | |
| 119 | México | 35,41 | 4 | |
| 120 | Hong Kong | 34,69 | 4 | |
| 121 | Polônia | 28,33 | 6 | |
| 122 | Japão | 26,04 | 8 | |
| 123 | China | 23,92 | 9 | |
| 124 | Índia | 21,12 | 4 | |
| 125 | Indonésia | 19,25 | 3 |
* Nas linhas marcadas como “Apenas fotos”, a comparação internacional se baseia em uma única família de materiais do Instagram. As pontuações resultam da transformação das coordenadas do modelo, e não da medição da porcentagem de pessoas que sorriem. Fonte: relatório de pesquisa do The Null Institute.
Por que sorrir sozinho não explica tudo
Mesmo que tivéssemos dados de qualidade idêntica para todos os países, restaria outra questão: a mesma frequência de sorrisos significa o mesmo nível de felicidade? Talvez diferentes culturas apenas expressem as emoções de formas diferentes. Talhelm, Oishi e Zhang [5] observaram pessoas que caminhavam sozinhas por campi universitários nos Estados Unidos e na China. Nos Estados Unidos, 29,1% dos pedestres sorriam; na China, apenas 3%. A diferença foi de quase dez vezes.
OBSERVAÇÃO DE CAMPO
E quando não há ninguém olhando?
Em campi universitários dos Estados Unidos e da China, pesquisadores observaram pedestres que caminhavam sozinhos. Veja a proporção dos que sorriam:
Estados Unidos
29,1%
China
3%
Uma diferença de quase dez vezes, mesmo entre pedestres que caminhavam sozinhos.
O sorriso talvez reflita tanto um hábito cultural quanto a felicidade interior. São observações locais, não estimativas nacionais.
Essa observação desmonta a explicação simplista de que os americanos só sorriem para agradar a outra pessoa.
Ainda assim, métodos diferentes às vezes encontraram diferenças semelhantes entre países: reações a anúncios e fotografias do Instagram produziram resultados parcialmente parecidos. Para os 31 países presentes nas duas fontes, a correlação de Spearman foi de 0,42 (p = 0,020; estatisticamente significativa). Isso sugere que métodos diferentes podem captar algum sinal em comum, embora ainda seja preciso estabelecer sua relação com a felicidade.
Esse resultado, por si só, não torna o ranking inteiro confiável. Para 50 países e territórios, tínhamos apenas um grupo de fotografias adequado à comparação. Fizemos 17 comparações entre grupos independentes de estudos com dados dos mesmos países. A proporção mediana de concordância quanto à direção das diferenças foi de apenas 59,1%, insuficiente para declarar nossa tabela sintética uma medida internacional confiável da felicidade humana.
Foi muito mais difícil avaliar a felicidade pelos sorrisos do que imaginávamos no início. Ainda assim, estamos convencidos de que o World Happiness Report diz menos sobre a felicidade que as pessoas de fato sentem.
Em que país vivem os corredores mais rápidos do mundo? A resposta de uma pesquisa
Imagine que queremos descobrir qual país tem os corredores mais rápidos do mundo. Em vez de realizar corridas e usar cronômetros, fazemos uma pesquisa: “De zero a dez, quanto você está satisfeito com seu preparo para correr?”
Calculamos a média das respostas, montamos um ranking e publicamos o World’s Fastest Runners Report. A imprensa anuncia: “Revelado o país com os corredores mais rápidos do mundo!”, e o primeiro-ministro de Lilipute declara solenemente que seu país tem os corredores mais velozes do planeta. Só que não medimos a velocidade de uma única pessoa.
A pesquisa pode ser impecável. Mas estar satisfeito com o próprio condicionamento para correr não é a mesma coisa que correr rápido. O erro não está nos números, e sim no nome que damos ao resultado.
É esse o problema que surge com a palavra “felicidade” no World Happiness Report.
(Se o exemplo dos corredores parecer forçado, existe um caso real: a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) observa que os moradores do Japão e da Coreia do Sul avaliam sua saúde de modo relativamente negativo, embora vivam mais do que a maioria das pessoas nos países da OCDE [6]. Essas autoavaliações também dependem de normas culturais e de como a escala de respostas é formulada.)
A felicidade que não aparece na pergunta
O ranking principal do WHR 2026 é calculado a partir de respostas à chamada “escada de Cantril”. A pessoa imagina a melhor e a pior vida possíveis para si e indica onde se encontra entre zero e dez. Depois, calculam-se as médias de pesquisas representativas ao longo de três anos. E a própria pergunta nem sequer usa a palavra “felicidade”. Isso está explícito nas perguntas frequentes oficiais [7].
ANATOMIA DE UMA MANCHETE
Como uma avaliação da vida vira felicidade?
ETAPA 1 · PERGUNTA DO GALLUP
“Em qual degrau da escada entre a pior e a melhor vida possíveis você está?”
ETAPA 2 · PESQUISA
Média da avaliação da própria vida ao longo de três anos.
ETAPA 3 · MANCHETE PÚBLICA
“Finlândia é o país mais feliz do mundo”.
Em que momento uma avaliação da vida virou uma medida de felicidade?
Já discutimos a diferença entre avaliar a própria vida e vivenciar a felicidade no artigo “Um país pode deixar você mais feliz?”. E na calculadora de mudança de país explicamos por que a posição elevada de um país no ranking, por si só, não prevê a felicidade de alguém depois de se mudar para lá. Aqui, porém, a pergunta é outra: por que os próprios autores do WHR escolheram esse nome?
No quadro 2.2 do capítulo 2 do WHR 2026 [8], os próprios autores perguntam por que o relatório se chama World Happiness Report se o foco principal é a avaliação que as pessoas fazem da própria vida, e não o quanto se sentem felizes. Segundo eles, happiness pode designar tanto as emoções quanto a avaliação que fazemos da vida, e esse segundo sentido é mais útil para analisar a qualidade de vida.
Portanto, não se trata de um erro de tradução. Os autores do WHR empregam deliberadamente o sentido avaliativo da palavra happiness, e essa escolha tem fundamentos científicos. Mas quem lê a manchete “Finlândia é novamente o país mais feliz do mundo” pode concluir que os finlandeses sentem alegria com mais frequência que os demais. O ranking principal do WHR não verifica isso: ele compara avaliações da própria vida. Fora do relatório científico, a distinção entre os dois conceitos se perde facilmente.
EXEMPLO REAL
Como um ranking científico vira slogan político
Em 20 de março de 2025, a ministra das Relações Exteriores da Finlândia, Elina Valtonen, escreveu na rede X:
A mensagem da ministra não permite concluir se ela conhece ou não a metodologia do WHR.
Dinheiro, felicidade e Emirados Árabes Unidos
Por que o nome do ranking importa tanto? Porque os resultados já ultrapassaram há muito tempo as publicações científicas, e líderes políticos usam posições elevadas como prova do sucesso de suas políticas. Na Finlândia, o ranking motivou uma manifestação pública de uma ministra. Nos Emirados Árabes Unidos, a felicidade ganhou ainda mais espaço: o governo fez dela uma política de Estado e financiou pesquisas internacionais.
Em dezembro de 2021, a jornalista Mara Hvistendahl relatou no The Intercept [9] que a Sustainable Development Solutions Network, organização ligada ao editor do WHR Jeffrey Sachs, havia recebido milhões de dólares de entidades dos Emirados Árabes Unidos para pesquisas e iniciativas internacionais sobre felicidade e bem-estar. A investigação mencionava pelo menos US$ 3 milhões; Sachs confirmou à jornalista o volume de financiamento.
Em 2016, os Emirados Árabes Unidos nomearam uma ministra da Felicidade. Em 2017, suas atribuições foram ampliadas para incluir o bem-estar.
No WHR 2026, os Emirados Árabes Unidos ocupam o 21º lugar no mundo e o primeiro entre os países árabes. Em 24 de março, a agência estatal WAM [10] noticiou com orgulho o resultado.
Mas a explicação estava errada. A agência apresentou o PIB, a expectativa de vida, a liberdade e outros fatores como os responsáveis pela posição elevada dos Emirados Árabes Unidos. Na realidade, o WHR os utiliza apenas para explicar os resultados: a classificação propriamente dita é calculada pelas respostas das pessoas sobre a própria vida.
DIVERGÊNCIA DOCUMENTADA
Agência estatal atribuiu o ranking a indicadores que não entram no cálculo
Ao noticiar o desempenho dos Emirados, a WAM citou PIB, expectativa de vida, liberdade, generosidade e corrupção como fatores que determinariam a posição do país.
Mas a posição no WHR não é calculada a partir desses fatores. Eles ajudam a explicar as diferenças entre as avaliações da vida; a posição é determinada pelas respostas à pergunta sobre a escada da vida.
É um erro verificável na apresentação pública dos resultados, não uma prova de interferência nos cálculos.
E aqui a distância entre os rankings fica ainda mais evidente: os Emirados Árabes Unidos ocupam a 21ª posição no World Happiness Report 2026, mas a 106ª no nosso índice experimental de sorrisos observados. Para os Emirados, temos apenas duas famílias de fontes; portanto, a 106ª posição não deve ser tomada como uma estimativa confiável da felicidade da população. Ainda assim, o contraste mostra como definições e métodos de medição diferentes de “felicidade” podem produzir retratos muito distintos.
Uma ressalva importante: o World Happiness Report surgiu em 2012, enquanto a maior parte das doações de entidades dos Emirados à SDSN, segundo a investigação [9], ocorreu entre 2017 e 2021.
Entre as doações mencionadas na investigação, pelo menos US$ 1 milhão foi destinado ao Global Happiness Council, que produzia recomendações para políticas públicas sobre felicidade [9]. Seu relatório de 2019 foi apresentado em uma cúpula internacional de governos em Dubai, com apoio do gabinete do primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos. Assim, os Emirados não apenas incorporaram a felicidade à própria imagem, como também financiaram sua promoção no plano internacional.
Até que ponto nosso ranking é confiável?
Para avaliar a confiabilidade do nosso ranking, abra a seção abaixo. Explicamos ali quais dados usamos, como os analisamos e quais são as limitações do método.
Metodologia e limitações do estudo
O índice de sorrisos do The Null Institute é uma análise secundária original de estudos publicados. As 125 unidades geográficas não se limitam a países soberanos. Das 24 famílias de materiais originais, 19 permitem comparações diretas entre países. O modelo utiliza 10.740 comparações par a par derivadas, que não equivalem a 10.740 observações independentes de pessoas.
A verificação confirmou a reprodutibilidade computacional dos cálculos. Mas ainda não foi estabelecida uma medida nacionalmente representativa da frequência de sorrisos, nem sua relação com a felicidade vivenciada a longo prazo por pessoas de determinado país. As pontuações do modelo, de 0 a 100, não são porcentagens de cidadãos sorridentes. Os intervalos da figura resultam da variação dos pesos positivos das fontes; não descrevem todos os erros de observação.
Os dados completos sobre o método, os testes de concordância entre as fontes, as limitações das fotografias e a verificação externa constam do estudo do The Null Institute [4]. Consideramos a falta de confirmação de algumas hipóteses iniciais um resultado da pesquisa, não um motivo para escondê-las.
Onde termina a medição e começa o marketing
Analisamos duas maneiras de falar sobre felicidade e encontramos dois problemas diferentes. Nosso índice de sorrisos ainda não permite comparar de modo confiável a felicidade das populações de diferentes países. O World Happiness Report mede avaliações da vida, mas, no debate público, seus resultados se transformam em afirmações sobre a felicidade de povos inteiros. O caso dos Emirados mostrou que essas afirmações fazem parte da imagem de um Estado. Não encontramos, porém, provas de manipulação do ranking propriamente dito.
É possível calcular de maneira impecável as respostas de milhões de pessoas. Mas, se o resultado recebe um nome chamativo e enganoso, o leitor passa a ter uma ideia errada do que de fato foi medido. A expressão “o país mais feliz do mundo” promete mais do que a pergunta principal do Gallup permite estabelecer.
Fontes
- Ekman P., Davidson R. J., Friesen W. V. (1990). The Duchenne smile: emotional expression and brain physiology. II.
- Gardiner et al. (2022). What happy people do: The behavioral correlates of happiness in everyday situations.
- Poh M.-Z. et al. (2025). Smartphone monitoring of smiling as a behavioral proxy of well-being in everyday life. Google Research, pré-publicação no arXiv:2512.11905.
- The Null Institute (2026). Can We Rank Countries by Smiling? An Audit of 125 Geographies and 24 Source Families.
- Talhelm T., Oishi S., Zhang X. (2019). Who smiles while alone? Rates of smiling lower in China than U.S.
- OECD (2025). Health at a Glance 2025: Self-rated health.
- World Happiness Report. Frequently Asked Questions: How the rankings are calculated.
- Helliwell et al. (2026). International evidence on happiness and social media, Chapter 2, World Happiness Report.
- Hvistendahl M. (2021). The Intercept: Investigation of UAE funding for happiness research.
- Emirates News Agency (WAM) (2026). UAE ranks first in Arab world and 21st globally in World Happiness Report.